quinta-feira, maio 25

José Vieira Mateus da Graça, o galardoado José Luandino Vieira

O Galardão da Literatura Portuguesa 2006 bateu à porta de Luandino Vieira. Entrou na Vila das Artes, que é a mesma Vila de Cerveira.

Porque sou desta Terra nascida e lá residente... Porque tenho o privilégio de "conhecer" Luandino Vieira, por quem nutro um especial apreço, fiquei naturalmente feliz por o grande Camões chegar a Cerveira na pessoa de José Luandino Vieira.

Há pouco mais de uma década, Luandino escolheu este canto encantado das Terras de Cervaria como retiro de todos os dias. Quer num moinho pautado pelo rio S. Lourenço, quer no mítico convento de S. Paio do escultor José Rodrigues, o escritor encontra aqui a alcova ideal para a sua libertação.

Apesar do seu dia a dia recatado, cuidando das árvores e da sua privacidade, criando o vínculo com os outros através da sua obra, a mesma Terra e a força das palavras escritas fizeram o ponto de encontro entre mim e o Luandino. E não são necessários muitos encontros e muitas palavras para bebermos dele uma sabedoria fantástica, uma filosofia de vida contagiante.

Não fiquei surpresa com a atribuição do Prémio Camões, porque lhe é conhecido o mérito. Não me surprende a recusa do Prémio, porque o Luandino é despido de protagonismo, é incompatível com este "Mundo". A sua atitude perante a vida está num patamar acima. Não é ele que o diz. Naturalmente, fá-lo sentir através do seu bom ar sereno e inibido, das parcas palavras cheias.

Para além da sua vasta obra, a biografia é também prenhe desde que se tornou cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Exerceu diversas profissões até ser preso em 1959, novamente em 1961 por 14 anos. Em 1954 foi transferido para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde esteve 8 anos, donde saíu em 1972 em regime de residência vigiada em Lisboa, altura em que iniciou a publicação da sua obra, a maior parte escrita nas diversas prisões. Depois da Independência foi nomeado para a Televisão Popular de Angola, que organizou e dirigiu de 1975 a 1978; para o Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA que dirigiu até 1979; para o Instituto Angolano de Cinema que organizou e dirigiu de 1979 a 1984. Como membro fundador da União dos Escritores Angolanos exerceu a função de Secretário-Geral Adjunto da Associação dos Escritores Angolanos Afrosiáticos, 1979 a 1984 e de 1985 a 1992 foi Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos. Após as eleições em 1992 e do recrutamento da guerra civil abandonou a vida pública passando a dedicar-se à literatura.

O que sei de Luandino é mais o "gosto" que fica das palavras.

Adelaide Graça

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