terça-feira, Abril 18

Um poema por dia de Alfredo Reguengo (VII)



Alfredo Reguengo era sem dúvida um poeta de intervenção.
Com a vitória dos Aliados, o discurso poético deixou cair o tom mais "agressivo" na forma, e tornou-se menos impulsivo e mais maduro. Segundo consta, Reguengo, tinha momentos em que escrevia vários poemas num dia e noutras ocasiões estava largos tempos sem escrever. O poema Viagem, é escrito em 12 de Setembro de 1963 e a temática desloca-se para os poemas de amor. Esta "Viagem" não se sabe se é uma metáfora, transfigurada em roupagem de mulher ou se será uma homenagem à companheira ou a mistura das duas. A sua ternura pela sua mulher está bem patente, na dedicatória deste livro " À Vivinha como a única coisa boa que a vida me deu", escrita pelo seu próprio punho.


Viagem

Se não vieres,
eu partirei
sozinho
pela estrada-de-noite
que se alonga
na planura
sem
fim.

Levarei nos meus olhos,
cansados
de esperar,
a tua imagem
-que ali ficou
à força de sonhada
-e ela será
a luz
que me há-de guiar
na noite
sem madrugada...

Partirei triste
-eu
sei-
por não teres chegado,
como tinhas dito
-e triste,
sobretudo
por ver
que não vieste
por não te merecer...

Mas o que ninguém consegue
é tirar
a tua imagem
dos meus olhos
deslumbrados!

Eu tenho-a,
viva,
lá dentro
e, para que ela não fuja,
hei-de levá-los... fechados!...

Alfredo Reguengo

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