segunda-feira, agosto 21

A crónica de Álvaro de Oliveira

Inquietação dos dias

Aquela tarde de férias, nas minhas piores férias de sempre, passou a evaporar-se de um sopro. Tudo me caía às mãos e logo tudo das mãos desaparecia. As mãos, sempre as mãos a convocar o sol e a tecer as mantas que me hão-de agasalhar no próximo inverno.

O tear é essa imensidão de repouso e descanso que ora passa por um tempo desprevenido e severamente abandonado, sem que outro linho lhe segrede a idade.

É Agosto e tudo está queimado. Todos os montes por aqui cheiram a terra queimada. A terra tomou a cor negra do carvão. As aves desapareceram. Todos os animais selvagens foram engolidos pelas chamas. Morreram milhares homens, mulheres e crianças. E os rios onde outrora mergulhei sonhos e ilusões não seguram sequer uma réstia de azul. Tudo por aqui é estranho a este olhar esbatido pela tarde que ora vai ao fim.

Antes, eram os bombardeamentos no Líbano; e o meu olhar húmido. Era Israel a furar o mais um tratado de cessar fogo; e a minha esperança entristecida. Era a hipocrisia dos americanos a ver os estragos da guerra; e a minha inteligência insultada.

Vou não vou, decido-me, olho em frente e caminho por dentro destes dias de inquietação para me insurgir contra essa corja de incendiários e patifes de guerras santas que soltos ainda se passeiam por lugares que elegi para deles fruir do verde e da frescura.

O olhar estende-se inquieto pelo negrume das cinzas que por este chão ficou, e tomo uma palavra para nela expressar o meu repúdio: - Porra! - É aqui que vejo que uma só palavra vale tudo e mil palavras valem nada. E que mais poderei dizer sobre a paisagem?

Para já, há noite e solidão. Pouco do que havia nos resta agora. Precipito o andar para o interior da noite e apercebo-me que sou invadido por uma indomável sede de justiça.
Ontem, por entre as chamas no Líbano o ar estava suspenso e sufocava as aves no leve manejar das asas. Aí atirei o olhar para lá dos rios, para lá dos montes, para lá das nuvens, para lá das cidades destruídas e, já na ausência do sol que entretanto desaparecera com as aves, procurei segurar as últimas horas daquela tarde que de um sopro se evaporava. Foi então que regressei com a esperança por melhores dias, ainda que os ataques no Líbano continuem.

Por melhores dias, sim, esses dias em que o mel escorrerá em abundância pelos dedos do tempo até saciar os desprotegidos e os refugiados das guerras e dos sucessivos ataques de incêndio. Contudo, nada direi da inquietação dos dias, desses dias de incerteza e dúvida, de dor e desespero, de pronto e de solidão, porque foi aí que os poderosos e os incendiários assaltaram os celeiros da nossa memória e levaram consigo o trigo da nossa esperança.

Creio por isso mesmo que a hora está próxima, essa hora que repentina passará como o vento, para consagrar o olhar das aves num voo de pureza admirável até ao limite dos dias desejados. E, com eles, assistir à destruição total desta satânica dualidade: vingança e ódio.

Álvaro de Oliveira

domingo, agosto 20

Há quem insista em não querer ver

O Estado de Israel desrespeitou o cessar-fogo, ao fazer um novo ataque, na última sexta-feira, no Líbano e diz que estas incursões vão continuar.
Os Estados Unidos, não condenaram mais este atentado.

Entretanto na Faixa de Gasa, Israel prendeu, esta madrugada, na sua própria casa, o vice-primeiro-ministro Palestiniano, Nasser al-Shaer.
Os Estados Unidos não condenaram esta prisão da segunda figura do governo da Palestina.

O exército israelita, já antes, tinha detido, do mesmo modo, o presidente do Parlamento palestiniano, Aziz Doweik, igualmente membro do Hamas e outros oito ministros e 26 deputados.
O governo dos Estado Unidos, também não condenara estes actos.

O que é preciso mais para colocar na ordem o Estado de Israel?
O que pretende Israel na Palestina e no Líbano?

E depois os terroristas são o Hamas, o Fatah's, o Hezbollah…

E Israel é o quê? E os Estados Unidos são o quê?

sexta-feira, agosto 18

Patriotismo serôdio

Uma comissão de inquérito do parlamento europeu, anda a investigar a eventual cumplicidade, dos governos europeus, a propósito dos voos ilegais, nos casos de "sequestro, rapto e detenções ilegais de suspeitos de terrorismo" efectuados pela CIA.

Os partidos, do CDS ao PCP, com a excepção do Bloco de Esquerda, mais os colunistas de direita e outros da esquerda conservadora, juntos neste coro pacóvio de “patriotismo”, indignam-se, com um eventual pedido, da comissão europeia, para que os governos europeus, da rota dos aviões da CIA, esclareçam, se houve “envolvimento e cumplicidade” dos mesmos e colaborarem no esclarecimento cabal destes voos ilegais.

Não tenho pachorra para certas patetices nacionalistas!

O caso é grave demais para “invocar” a (in)constitucionalidade deste pedido da comissão europeia ou de outros aspectos jurídicos.

Estamos a falar de responder a “pedidos de esclarecimentos”, caramba!...

Falar em "soberania", em "competências", é contraproducente, quase indecente.

Não importa, para o caso, saber se o governo:
“só é obrigado a prestar esclarecimentos à AR”, como pretende, Ilda Figueiredo;
ou “os governos nacionais não respondem perante o PE”, citando Luís Queirós;
ou “do ponto de vista jurídico, a posição do Governo é inatacável”, como refere Hasse Ferreira;
para justificaram as suas posições de recusa e de alinhamento ao lado do governo, se este for desafiado a prestar declarações.

O que importa é que o esclarecimento se faça!
O que importa é saber das eventuais responsabilidades de alguns governos europeus, nos voos da CIA, transportando pessoas, “sequestradas, raptadas e detidas ilegalmente” e de um presumível conhecimento e colaboração, para usarem um corredor aéreo europeu, a pretexto do combate ao terrorismo.

Como diz, Miguel Portas, “quando o Governo se refugia numa posição de soberania e procura torpedear o trabalho de uma comissão de inquérito, está a prestar um serviço a Washington".

Acrescentarei que quem não deve não teme!
E quanto pateta é, relacionar as questões de soberania nacional, porque uma comissão europeia pretende “descobrir” a verdade e ouvir os governos, por onde operou a rota dos aviões da CIA.

Já não fico desapontado.
Dou 20 em 20 pontos à posição do Bloco por mais politicamente incorrecta que possa ser considerada.

Isto vem provar o quanto parolos nós, portugueses, ainda somos. A Espanha ao que li mostrou-se logo disponível, para colaborar.


Julho, o mês mais mortífero

O mês de Julho foi o mais mortífero no Iraque. 3500 pessoas morreram vítimas da guerra, ou das guerras, que lá se desenvolvem.

À ocupação terrorista somam-se os ataques terroristas, às bombas que vêm de cima juntam-se as bombas que explodem ao lado das pessoas em carros armadilhados.


É difícil conhecer com precisão os fundamentos desses ataques terroristas que aparentemente são de chiitas contra sunitas e vice-versa.

Mas em tanta mortandade deve estar mãozinha dos serviços secretos americanos - a CIA é especialista em ataques terroristas, em voltar comunidades contra comunidades.


Quando não se consegue derrotar os adversários é melhor dividi-los. Os EUA sabem disso, e é isso que devem estar a fazer.


Morrem milhares de pessoas; e isso que lhes interessa? Prometeram paz; e isso que lhes interessa?


Victor Franco

Uma prenda da Cris.

A Cris deixou-me esta prenda. Melhor era difícil.



Compay Segundo, morreu há dois ou três anos. Era um músico quase único. E esta música é extraordinária. Compay Segundo era genuinamente a imagem do povo cubano. Uma lenda. Morreu aos 95 anos. Não esqueço Compay o seu grupo e as suas magnificas interpretações músicais. As minhas homenagens e obrigado Cris.

quinta-feira, agosto 17

O marketing dos pobres

Pobreza “ Ajude por favor”, pede o letreiro colocado aos pés em cima de um saco azul. A mensagem contém ainda uma outra garantia: “ Sou portuguesa”. O que terá levado esta mulher, que se expõe assim na escadaria do Marquês de Pombal, a lembrar a sua nacionalidade? A pobreza tem rosto. Mas terá marketing? Há olhares de cidade que valem por si só. Sem respostas, mas com várias perguntas. E muitas inquietações…

Esta fotografia (digitalizada) e o comentário vinham hoje no Diário de Notícias. Não quero acrescentar mais nada. Apenas reforçar a sabedoria da senhora, ao colocar aquelas duas palavras, “Sou portuguesa”. Sem dúvida uma frase notável que suscita muitas interrogações e muitas inquietações...

Uma lição de marketing!

(Embora uma frase que dita por outros, noutros contextos, não teria dúvidas em a classificar de racista e xenófoba. Fica o elogio a sagacidade.)

E as prendas, carago?

Este rapazinho faz hoje 51 anos!

quarta-feira, agosto 16

(Não) há coincidências

Os que apoiaram a invasão do Iraque apoiaram agora a guerra de Israel contra o Líbano.

Contra o Iraque fez-se uma guerra, invadiu-se um país soberano, morreram e morrem ainda milhares de pessoas, com o falso pretexto de destruir armas químicas, que não existiam. Tudo mentira. Ficou provado.

O país está pior. Corre o risco de fraccionamento. A insegurança é maior. Por dia morrem, ainda hoje, só na capital do Iraque, 50 a 70 pessoas por dia, segundo fonte da administração americana.

No Líbano, o pretexto do bombardeamento em massa, teria sido o rapto de dois soldados israelitas. Agora, aparecem investigações e testemunhos a demonstrar que a guerra já estava planeada, antes do rapto. Nova mentira para uma intervenção terrorista (e no mínimo desproporcionada) mesmo admitindo como verdadeiro o motivo.

Que novos argumentos encontrarão os do costume?

Nestas guerras desenharam-se claramente duas linhas:
Os que apoiam, incondicionalmente, toda a estratégia dos Estados Unidos, mesmo a mais tenebrosa, a mais asquerosa; a guerra que mata, milhares de pessoas inocentes, arruína países, sem questionar as razões profundas de tais crimes… e os outros.

São estes outros que a democracia e a paz mundial precisam. Os senhores da guerra e seus apoiantes que se lixem. Merda para aqueles que em vez de reconhecerem os seus erros irão encontrar, novas desculpas, para justificar, mais um crime contra a humanidade.

A lista negra

Amanhã sai a lista de devedores à Segurança Social. As dívidas à Segurança Social, são, presumo, na sua maioria, relacionadas com retenções na fonte dos descontos de empregados e não entregues à Segurança Social.

Apoio incondicionalmente esta medida!
Nada como a tomada de medidas fortes para atacar problemas concretos e injustificáveis, por menos (ou mais) ortodoxas que sejam as medidas.

Quem não paga deve ser denunciado e deve ser punido. Não é admissível este tipo de dívidas. A publicação de nomes na praça pública, comporta riscos e por isso todo o processo, deve decorrer com muito cuidado. Mas tem de ser publicado. É um passo importante no combate à fuga e fraudes fiscais. Outro passo, mais importante ainda, seria a abertura do sigilo bancário. Aí tem faltado a coragem.

A publicação do nome dos devedores é uma exigência cívica de quem paga os seus impostos.

Os devedores foram avisados com tempo. E em caso de erro podem sempre recorrer em sua defesa nos tribunais. Mas, como se viu no caso da publicação das dívidas fiscais, não houve problemas e não vai haver agora, também.

As dívidas à Segurança Social, são inaceitáveis.

Não transferir os descontos dos trabalhadores é desprotegê-los nos seus direitos sociais elementares.

Quantos trabalhadores, por conta de outrem, não foram já confrontados, com situações de doença, de despedimento ou de aposentação e verificaram que parte ou a totalidade dos seus descontos não foram transferidos? E qual é o resultado destas situações?

Venha de lá essa lista, com nomes e moradas. Para os inscrever na “minha lista negra”.

Cessar Fogo

Está visto que só à chuva os fogos obedecem.
Diz o velho: acabam!
E se há lei forte é a da natureza
A do homem? que pobreza, meu deus, que pobreza!


Nota: este post não é meu. É o primeiro post de, um novo Blogue, de um velho conhecido. Começa muito bem e com refinada ironia. Continua velho amigo. De vez em quando dá cá um saltinho. Fica desde já sinalizado que vai valer a pena visitar o Ironias do Velho .

terça-feira, agosto 15

Parecenças e dissemelhanças

Cuba não divide a esquerda.

Muitas pessoas de esquerda, sobre Cuba e sobre Fidel, fazem avaliações distintas, até opostas e contudo, tais apreciações, em nada beliscam, a sua condição de pessoas de esquerda. A esquerda das liberdades, da igualdade, da justiça social.

Não justifico Cuba. Não justifico Fidel. São quase 50 anos de poder absoluto, após o derrube da ditadura de Fulgêncio Baptista em 1959, por um exército de guerrilheiros, sob o comando de Fidel e Che Guevara. Não justifico, Cuba, não justifico Fidel, mas compreendo porque tanta gente de esquerda defende o regime cubano e o seu líder.

A defesa de Cuba é uma autodefesa, contra o império americano, contra as direitas reaccionárias, contra a prepotência e arrogância dos poderosos. A maioria dos defensores de Cuba, alavanca as suas posições nos grandes avanços na saúde, educação, na habitação, apesar do cerco económico, das manobras da CIA para derrubar o regime. Alguma tolerância da população perante os evidentes constrangimentos às liberdades, à escassez de meios, ancora na bondade de um povo, cortês, despretensioso, simples, que a seus olhos, partilham as dificuldades. Esse é um grande orgulho nacionalista.

Por isso compreendo e concedo o benefício dessa postura, embora não concorde com ela, aos defensores do regime e de Fidel de Castro.

Por isso digo que Cuba não divide a esquerda.

A Coreia do Norte ou China, sim, divide.

E aí não consigo perceber mesmo, nem transijo, na relação de “irmãos”, entre os partidos comunistas no poder, nesses países de ditadura feroz, muito dissemelhante ao de Cuba, na sua raiz, propósitos e essência e o de uma esquerda conservadora.

Por aí e nestas questões, assentam, também, muitas das minhas divergências com o Partido Comunista Português.

Nostalgia

1 - A guerra suspensa no Líbano. Ainda não é o fim. Embora tarde, a resolução do Conselho de Segurança da ONU, para já produziu efeitos.
O que me chateia mesmo é ouvir falar em vencedores e ven
cidos. Não é um bom caminho!

2 - Hoje, não tinha dada por ela que é feriado. Na rua, só avisto emigrantes portugueses em férias.
Todo o tempo e espaço do mundo para os emigrantes nesta altura!

3 - Não ando particularmente bem e daqui a dois dias faço 51 anos.
Sinto-me fatigado. Não me apetece sair de casa!
Tenho saudades dos meus "putos". Não me "ligam" patavina.


4 - Um bom dia para todos. Mais logo, pode ser que apareça.


segunda-feira, agosto 14

Compreender Cuba

"Para analisar a actual situação em Cuba, publicamos uma série de textos para reflexão.
Uma excelente e extensa reportagem de Jon Lee Anderson. Uma entrevista ao jornalista brasileiro Fernando Morais, um texto elogioso para Fidel do seu amigo Garcia Márquez em que Fidel é apresentado como líder único e esclarecido, e um texto muito violento contra Fidel do escritor Carlos Montaner.

Pensamos que todos eles são importantes para compreender a realidade, e é importante sublinhar que a publicação destes textos não implica a concordância da redacção com todas as suas linhas e, em alguns, com nenhuma letra."

(do esquerda.net do bloco de esquerda)

Para quem quiser acompanhar o link fica disponível na coluna do lado direito do blogue com este símbolo.




domingo, agosto 13

50 pessoas são mortas diariamente na capital do Iraque

Os Americanos estão em todas guerras.
Não há uma em que directamente ou por interposição, não tenha lá as patas. Para defender a democracia, dizem. Só alguém demente é que pensará assim. Os Estados Unidos defendem apenas os seus interesses estratégicos mais nada, como grande potência imperial que são e querem continuar a ser. Não são palavras. São os factos que o demonstram.

Outras potências seguem-lhe os passos.
A Europa quer também construir o seu próprio império. Há vozes a defender o reforço no armamento e num exército europeu, como ponto de equilíbrio. Não me convencem. Só apostando na paz se vai lá. Com a mobilização dos povos contra as guerras, contra os terrorismos, pela negociação.

Nessas guerras morrem milhares de pessoas inocentes.

Hoje é com normalidade que se assiste a estas mortes, entram-nos a toda a hora, através das televisões, jornais ou rádios, pela cara adentro. As detonações das bombas que destroem tudo, matam e estropiam pessoas, são o pão-nosso de cada dia.

O mundo anda indiferente ou cheio de medo.

Uma frase de uma senhora lida nas cartas ao director do jornal o Publico, um dia destes, chamou-me a atenção e fixei-me nela. Jamais sairá da minha cabeça.
Dizia ela: Nestes tempos e nesta idade, será que não tenho o direito a gerir os meus afectos?

Será que temos, mesmo?
Confesso que este sentimento passa-me muitas vezes pela cabeça.

Cuba III

Pode haver socialismo fundindo o partido com o Estado?
Uma das características dos regimes ditos socialistas é a fusão do partido com o Estado. De onde virá essa consequência? Apenas algumas notas.

O conceito vanguarda do proletariado e o exercício do poder por essa vanguarda organizada no partido do proletariado:

Determinado que havia um partido que era a vanguarda, a reserva mais consciente e avançada do povo, o filho mais querido do proletariado, o melhor fruto da revolução, a ditadura do proletariado era exercida pelo representante desse proletariado – legitimamente – o partido. Por definição dos estatutos do partido e até por definição constitucional. Esta poderá ser uma das ilações porque não são necessários outros partidos. O que era necessário era eleger representantes pessoais do povo – intimamente ligados ao povo – portanto em círculos uninominais. Elegia-se o cidadão A ou B não se faziam escolhas políticas por caminhos e soluções políticas. Era assim no leste, penso que será assim em Cuba.

Aqui há uma outra questão. A ditadura do proletariado, a caminho do socialismo, exercia-se para impedir a volta da burguesia ao poder. Ora se se reconhecia que existiam ainda classes sociais como se poderia fazer a representação política dessas classes? Será abusivo dizer que não podendo se expressar livremente e eleitoralmente, as diversas opiniões e interesses na sociedade, esses interesses tivessem como único, estranhamente, precisamente o partido que se dizia do proletariado? Sim porque quando se expressavam na sociedade recebiam a prisão e o fuzilamento como resposta! E lembram-se daquela frase que diz que “não há machado que corte a raiz ao pensamento”?

A ausência de democracia, de contraditório, de eleições livres a todos os que respeitassem a “democracia popular” concentrou no poder uma única organização – quase sempre um único grupo de pessoas que se perpetuaram no poder. E o que é um facto, é que um grupo de pessoas, maior ou menor, se constituiu como centro de poder, se constituiu como “proprietário” indirecto dos meios de produção, como decisor único sobre esses meios, sobre o poder de Estado, sobre a economia. O que é um facto é que esse grupo de pessoas se constituiu em classe-em-si, em burguesia beneficiadora dos privilégios fundamentais e do controle da economia.

Talvez a fusão do partido com o Estado ajuda-se a levar a que esse Estado deixa-se de ser a ditadura do proletariado e passa-se a ser a ditadura do partido que se dizia do proletariado. E esse partido deixou de ser do proletariado e passou a ser de uma outra e nova classe.

Em Cuba os privilégios poderão ser diminutos, se comparados com os da ex URSS, mas a raiz ideológica do problema é a mesma. Talvez isto tenha a haver com a perpetuação dos dirigentes. Dirigentes idolatrados e temidos.

E perante tudo isto não há romantismo que nos valha!

Os marxistas não têm futuro se persistirem nos dogmas trágicos do passado. A prática marxista parte de uma análise da sociedade, de uma referência de classe, com as ferramentas do materialismo e da dialética - não é um exercício de copy-paste de soluções de um outro tempo de uma outra realidade.

Victor Franco

sábado, agosto 12

Ardis propagandísticos

O governo é perito em manobras de propaganda. A Direcção Geral de Contribuição e Impostos anunciou em grandes parangonas que os reembolsos da primeira fase estavam todos processados. Como ainda não tinha recebido fui ao site da DGCI, não fosse, sem saber, um dos casos de contribuintes, com problemas com o fisco que ficaram pendentes.

Não, não era, a diferença está no pequeno detalhe; processados. São ardis linguísticos que enganam os incautos. Processados não quer dizer pagos ou prestes a pagar. Não. Quer, apenas dizer que já estão observados, vistos e revistos, que estão correctos e que podem ser enviados os reembolsos. São já quatro meses. E oque é um facto é que o reembolso do IRS ainda não está na minha conta.

É absurdo que a DGCI faça uma nota de imprensa para comunicar um facto irrelevante e manhoso. Nota de imprensa, para quê e porquê? Estamos num país de terceiro mundo. Os manhosos davam a entender que o dinheiro já estava na mão dos contribuintes...

Fazem de nós uns parvos esta gente ridícula.

Em vez de pedir desculpa, pelo atraso de mais de quatro meses, nos reembolsos; das altas taxas de retenção praticadas na fonte, ainda, nos tratam como coitadinhos a quem se oferece uma esmola. Como se cumprir um dever e devolver o que é nosso, fosse um caso extraordinário, a merecer nota de imprensa.

Melhor seria que explicassem a vergonha dos selos de carros, com prazos sucessivamente adiados, por razões inexplicáveis ao bom senso.

sexta-feira, agosto 11

Verdade ou mentira?

Quem é capaz de nos garantir que havia um plano terrorista, para fazer explodir aviões, ou se isto não passa de uma manobra de contra informação para desviar as atenções, do insucesso no ataque ao terrorismo, justificar o ataque ao Iraque, a perda de popularidades dos lideres, o apoio a Israel, a continuação dos conflitos no Médio Oriente?

A história dos conflitos, dá-nos inúmeros exemplos destas manobras. No caso da América a imprensa, não há muito tempo, deu conta de posições, na administração “para se fazer qualquer coisa” que justifique uma onda de medo de actos terroristas. Convém manter esta onda de temor, para justificar, a defesa das medidas adoptadas ou outras que venham a ser tomadas.

Sabendo isto, é sensato questionar se quando se fala de terrorismo ou de atentados, especialmente, se as “fontes” são os Estados Unidos ou o Reino Unido, se está a falar verdade. Nós não sabemos nada. Apenas sabemos o que as autoridades dizem. Este questionamento pode não levar a nada, aparentemente. Mas deixa-nos alertados para não embarcarmos em aventuras, ou abalizar determinadas políticas.

O perigo existe, as organizações terroristas, não foram desactivadas, apesar das guerras desencadeadas, do desperdício de milhares de mortes de inocentes. A guerra não trouxe a paz, a derrota do terrorismo, a insegurança é agora maior.

O que isto vem mostrar, primeiramente, é que a invasão e a morte de milhares de pessoas na guerra do Iraque não tinha nada a ver com a guerra ao terrorismo. Foi uma mentira inventada, para os Estados Unidos e aliados, exercerem o domínio de uma importante zona geoestratégica e de controlo dos interesses petrolíferos, numa estúpida intervenção, aplaudida, pelos vendilhões da dignidade humana e traficantes das memórias colectivas, que matou milhares de pessoas.

Lembro-me disto e ocorre-me, dizer, como são estúpidos, os nossos entusiastas defensores de tudo o que cheire a americanisse, os “distintos” neoliberais mais conhecidos do nosso burgo.

Estamos perante uma mentira, numa campanha de contra informação e de medo, ou o perigo está aí na esquina mais próxima, a provar que estes conflitos, não se resolvem com as bombas, mas sim com a diplomacia e com a resolução dos problemas candentes na Palestina?

A solução está na paz.
Na exigência do abandono da política imperial dos Estados Unidos, em primeiro lugar.
Está em entregar a Palestina aos palestinianos.
Na retirada de Israel dos territórios ocupados.
Em exigir o cessar-fogo e retomar as negociações.
Em respeitar as determinações alcançadas no âmbito da ONU.
A solução está em encarar de frente os problemas do Médio Oriente.

Este contínuo atirar de labaredas para a fogueira, interessa aos dirigentes dos Estados Unidos e interessa aos terroristas. Mas não interessa aos povos de todo o mundo.

Não sou dos que defendo a aposta no reforço militar na Europa, para competir com os Estados Unidos. Não acredito que a uma força militar europeia, vá demover a Nato de intervir quando quiser. É entrar por um caminho perigoso e sem volta.

O investimento no desarmamento deve ser a linha directora de todos os movimentos de opinião e defensores da paz em todo o mundo. Os países estão a ser tomados pelo medo. O campo está aberto para o reforço de medidas mais securitárias.

Quando milhões de crianças morrem à fome em todo o mundo defender o reforço militar é uma medida contra-natura. Deixem-me ser "romântico" e utópico pf, e acreditar na capacidade dos povos, de criar “correntes fortes” de oposição a estas guerras sem nexo algum.


quinta-feira, agosto 10

Ontem, finalmente fui à pesca



do robalo. Cerca de três horas de pesca, ente as 19 e as 21,30 horas. Pesco neste molho da Praia Norte, bem lá no extremo e tenho que descer, perigosamente, por aquelas âncoras de pedra que protegem a entrada das ondas pelo cais de embarque dos pescadores.
Começo a ter medo de descer por ali. O joelho e a idade já não ajudam
nada. Apesar disso hoje conto lá ir outra vez, uma hora mais tarde, (é sempre uma hora mais tarde) por causa das marés.




Não correu muito mal a pescaria. Apanhei quatro, embora um, o maior (tinha de ser...) com cerca de 800 gramas, acabasse por fugir, do saco, mal fechado, uns minutos após o ter apanhado.

quarta-feira, agosto 9

Cubanos proibidos de ver televisão (link)

Porra, socialismo, não é isto. Se fosse isto merda para o socialismo.

A palavra socialismo de tão mal empregue, começa a assustar.

Diziam-se socialistas os regimes dos países do leste Europeu, a Albânia, Angola, Camboja e eram ditaduras. Continuam a afirmar-se socialistas, os regimes na China, em Cuba, na Coreia do Norte, a Líbia, o Laos, o Vietname e alguns deles, são ditaduras ferozes e não democráticos.

Olhamos para os partidos socialistas europeus no poder e praticam políticas neoliberais, anti trabalhadores. Olhamos para os partidos comunistas e a maior parte deles, continua, a advogar, políticas ultrapassadas e a defender regimes tiranos.

Afinal o que é o socialismo?

Agora leio que Cuba, em nome da preservação dos interesses do regime e "do povo cubano", impediu os residentes de verem notícias, emitidas por canais estrangeiros. China e Cuba que mantêm ainda, restrições severas ao uso da Internet e praticam a censura nos conteúdos.

Talvez, tenham, os verdadeiros socialistas, de examinar a conveniência de usar a palavra socialista. Ou então, explicar muito bem que tipo de socialismo se defende e em que se diferencia daqueles.

E o mesmo sobre a palavra Esquerda, também, dizer-se o que se entende por esquerda. Há para aí tanta palavra mal utilizada ou deturpadamente usada...

Não digo isto para me esclarecerem a mim. Eu sei que tipo de socialismo defendo e o que é ser de esquerda. Se for preciso eu digo o que penso sobre isso, mas preciso de tempo e disponibilidade mental. Agora não.

Para as gerações mais novas deve ser uma grande baralhada.

Para que não haja confusões, conviria falar nisto, mais vezes.


terça-feira, agosto 8

Cuba II

Num post anterior colocava algumas reflexões. Elas suscitaram opiniões muito interessantes e sentidas. Gostei dessas reacções porque se colocam com abertura e sinceridade.

Por isso quero voltar à primeira pergunta: Pode haver socialismo sem direito de greve dos trabalhadores? Pode haver socialismo com pena de morte? Pode haver socialismo sem direitos humanos?

Não resisto a contar um dos episódios. Num dos hotéis, em Varadero, onde fiquei, estive de conversa com uma empregada de limpeza. Ganhava (há dez anos atrás) 20 dólares por mês. Parte do seu salário real era o que lhe vinha das ofertas de bens dos clientes dos hotéis, material escolar, de higiene e limpeza...

Falámos um pouco sobre a vida difícil que levava. Em dada altura perguntei:
E se fizesse greve por aumento de ordenado? Resposta pronta: "Não posso que me prendem".

Senti uma coisa estranha, eu estava a falar com uma trabalhadora num país dito socialista... tentei argumentar, mas não dava... não havia argumentos.

Se um país é socialista os trabalhadores precisam de ter direitos de cidadania. Não é isso que reclamamos no capitalismo? Como posso eu lutar por uma sociedade em que tenho menos direitos do que agora?

Reconheço os avanços na medicina, na educação... um pouco à semelhança dos outros países ditos socialistas. Mas a vida demonstrou que esses avanços são insuficientes para qualificar o socialismo. Não sendo comparável, também reconheço avanços desse tipo em países nórdicos - mas esses países são capitalistas. O socialismo não depende apenas do papel social do Estado - da maior ou menor redistribuição do nosso salário indirecto.

Há uma coisa importante a ter em conta: a relação entre as pessoas na sociedade - essa sociedade dá ou não direitos aos cidadãos? No socialismo precisamos de ter medo dos direitos das pessoas?

A pena de morte é um exemplo demarcatório. No socialismo todos os cidadãos têm que ter direito de acesso à justiça - cada vez mais negado no capitalismo. Então como é possível que alguém ordene fuzilamentos sem sequer a pessoa ter direito a um sistema judicial democrático? E mesmo que tivesse acesso, como é possível no séc. XXI existir a barbaridade da pena de morte?

Os direitos têm que ser parte integrante de um futuro socialismo. É por esse que eu luto.

Victor Franco

segunda-feira, agosto 7

Postal

Este fim da tarde-noite não está a correr muito bem um pouco à semelhanças das duas últimas noites.

Nestas duas noites, praticamente, não dormi. A Meadela esteve em festa, este fim-de-semana com a sua romaria. A minha casa está no coração do local das festas. A música pimba horrorosa, a voz deslavada do locutor, os altifalantes rafeiros, o barulho estridente das pessoas e por fim, o desmontar dos materiais durante a madrugada, para além de me provocar uma enorme irritação, não permitiram um sono descansado.

O dia até correu bem, mais ou menos o ritual do costume. O ginásio de manhã, o café e a biblioteca da praia, à tarde. Faltou a praia. Estava cheiinha e não gosto de muitas confusões. Resisti à tentação de apreciar uns belos bronzeados de umas belas meninas.

Esta noite pensava colocar um post sobre a imbecilidade do Conselho Europeu ou de um seu comissário, vai dar ao mesmo, de ter dado razão a uma empresa irlandesa, se não estou em erro, de recusar-se a contratar empregados que se afirmassem fumadores.

Nem sei como classificar esta cretinice. Já não basta as discriminações que se conhecem, com base no sexo, na orientação sexual, religiosas e outras, só falhava esta, de uns perfeitos idiotas, discriminarem com base no facto das pessoas fumarem. Não lhes basta dizerem que não podiam fumar nas instalações, querem também interferir na vida pessoal. Talvez prefiram que as pessoas mintam. Ninguém as iria impedir de fumar fora do emprego. Já tinha o texto quase feito e pimba a luz foi abaixo e perdi tudo. Não me apeteceu voltar a escrever sobre o mesmo tema.

A electricidade veio uns largos minutos depois. Escolhi falar sobre o pensamento. É, sobre o pensamento… sobre os meu pensamentos. Os pensamentos que a todo o momento fervilhar turbilhões de ideias, de coisas, em simultâneo e que, regra geral, me inquietam. Estava a escrevê-lo em forma poética. Dá-me para isto às vezes. Azar meu e sorte dos leitores. A electricidade falhou novamente e uma vez mais tudo se perdeu.

Voltou agora a luz outra vez. E aqui fica um post inútil. Como muitos outros.
Um crente, diria que talvez seja um chamamento a pôr-me à prova. Se assim foi, prova superada.
Sinto forte, neste momento, a poesia de Alfredo Reguengo:

É em vão que bradais para que a minha voz se cale!
Em mim
o pensamento
é voz e é semente!

Hei-de falar, porque penso e vivo
e hei-de pensar
constantemente

(…)

Os estados fúnebres da direita

António Pires de Lima continua a sua missão contra o líder do seu partido. O que o move? Um apoio futuro a Paulo Portas? Qual a diferença do seu projecto político com o de Ribeiro e Castro?

Pires de Lima diz que uns eventuais "estados gerais da direita" serão uns "estados fúnebres da direita"!

A direita anda em dificuldades. Não admira, o governo PS transferiu-se com armas e bagagens para o seu campo político. Os dados, hoje conhecidos, de que o PSD e CDS foram os partidos que mais votaram ao lado do PS são elucidativos. Isto sem contar com 8 propostas de lei do governo que, por serem tão mazinhas, nem a direita teve a coragem de votar ao seu lado.

Não admira que a direita esteja em dificuldades. Pelo menos enquanto a burguesia continuar a apoiar o PS e o seu governo. E este a fazer a política da direita!

Victor Franco

sábado, agosto 5

Desabafos à esquerda

Quem me acode? Estou profundamente agastado. Cansado e farto. Voltei à política partidária, com o Bloco de Esquerda. Já lá vão uns anitos. Mas num intervalo que surja vou deixar a militância partidária.

Como militante partidário tenho um grau de exigência elevado. Comigo e com os outros. Gosto de ser e não pertencer. Gosto de fazer acontecer. Não gosto de estar. Já não tenho muita paciência, para esperas. Para estar, por estar. E para ver sempre as mesmas caras. É difícil trabalhar comigo, reconheço. Tenho quase sempre opinião e ideias. O que é uma grande “chatisse”…

Não pretendo que as minhas posições vençam sempre, não tenho esse pretensiosismo, mas o acomodamento, a insuficiência de posição critica, faz-me impressão, dentro da estrutura. Falta uma cultura de critica. Não culpo a direcção ou talvez culpe, por falta de estímulos, por ser demasiado distante, por dar “autonomia” a mais, por “controlar” a menos, por não estar. Presos por ter cão e por não ter, dirão eles e talvez com razão. Poi é caros amigos, é difícil encontrar a dose certa.

Sei que vejo a intervenção política de um modo muito peculiar. O que estou a dizer não é novidade para os meus camaradas e muito menos para os meus amigos. E muitos anos decorridos, confesso faltarem-me já as forças e o ânimo, para tentar atravancar certos comportamentos errados e por isso prefiro manter-me à distância mínima.

Considero mais de meia dúzia de anos passados que está a faltar capacidade ao Bloco para atrair “novos públicos”, para a actividade partidária, fazer interessar mais as pessoas, investir mais, nos mais jovens. Trazer mais jovens à liderança. Não culpo o partido, tão-pouco as políticas do partido. Muito menos as pessoas ou os jovens. São sinais dos tempos. Mas é possível fazer mais, penso eu.

A “desconstrução” ideológica foi e é a alma do Bloco. É esta a sua marca distintiva, genética, a sua “impressão digital”. É este modelo que permite questionar o que era dado como adquirido, repensar as práticas políticas, reflectir sobre as ideologias, adaptar o pensamento e a acção aos novos problemas de uma sociedade moderna, com respostas novas e adequadas.

A “descontrução” ideológica, não é pois, um abandono da ideologia. É antes um assumir de que a ideologia não se esgotou nos pensadores clássicos marxistas ou nos pensadores mais contemporâneos, anti-capitalistas. Sem complexos e sem preconceitos, tendo como pano de fundo, os valores capitais de uma sociedade socialista, num cenário de um novo mundo globalizado. Estou de acordo com este caminho. Parece-me aliás o único.

O Bloco afirma-se da esquerda e socialista. Faz bem. A esquerda e o socialismo são o traço comum, a muitas mulheres e homens que procuram a justiça social, a dignidade, a fraternidade, o bem-estar a todos os níveis. E o Bloco tem a obrigação de contribuir, com o seu melhor esforço, para que a sociedade melhore e mude. Acho que tem feito muito por isso, sinceramente.

Isto não quer dizer que cauciono todas as políticas e todos os dirigentes do Bloco. Não o conheço o suficiente, todos os dirigentes. Mas estou convicto da bondade das suas motivações políticas. Acredito, mesmo que estão na política, para servir a causa pública. Não serão todos, certamente. Existirão e onde existir sempre oportunistas que antevêem o entremetimento na coisa política, como trampolim para outros interesses particulares.

Queria acreditar que não, mas apesar de crédulo não sou tão ingénuo a esse ponto.

Há comportamentos que não aprecio, mas avalio como adversidades naturais, num partido, novo e ainda a estruturar-se. Mas estou atento. Interessa-me, antes, acentuar o que melhor descortino na actividade do Bloco. A presença de um vasto grupo de pessoas, verdadeiramente empenhadas. Desinteressadamente empenhadas. Pessoas que dão o seu tempo, a sua disponibilidade mental e física, a um ideal, a uma ideia. A de construir uma ponte de esperança, de resgatar a política, de se entregarem à causa de uma sociedade mais igualitária e justa. Uma sociedade socialista na sua profunda essência.

O problema é outro. O problema sou eu e outros como eu. E piores que eu. Estou cansado. Saturado. Sem paciência. E quero mais e exijo mais e desgosta-me que tudo ande ao ralenti. É preciso mais. Não podemos estar à espera que “os amanhãs cantem”. Que a “história nos dê razão”. Que tenhamos mais deputados, mais autarcas, mais influência, mais simpatia. É bom, mas é pouco.

Os pobres, os desempregados, os sem casa, os famintos, os angustiados com os novos tempos, os desempregados, os com o emprego precário, todos os que estão preocupados, com o presente e um futuro incerto e inseguro, com a assistência social, com a saúde, com a segurança, não podem esperar. Querem ter tempo de ter uma vida para viver com dignidade. E aqui há muita a fazer e daí, também alguma da minha insatisfação. Não estou no partido por estar. Estou porque quero que alguma coisa mude.

Já o disse. Não sou uma pessoa sectária. Não sou um radical. Mas sou alguém com princípios e causas. E estando em causa certos princípios, certas atitudes inadmissíveis, como a indignidade, a injustiça social, sabem que contam comigo, a sério. Aí transfiguro-me. Aí cuidado comigo. Por isso é que valorizo a unidade, os pequenos avanços, as pequenas e grandes conquistas, não importa se conseguido, à custa de um apagamento partidário, da ajuda do padre da freguesia, da instituição social, do movimento associativo, da actividade de outro partido.

É por isso que defendo uma esquerda, ainda mais ampla. Uma esquerda orgânica com base em linhas programáticas concretas e comuns à esquerda. Para fazer pequenas conquistas que para os beneficiários são grandes conquistas. Para dar uns empurrões para a frente. Uma esquerda de denominadores comuns. Uma esquerda orgânica, sem, perda da intervenção e identidade própria, de cada organização, partido, ou associação cívica. Uma frente de esquerda. À semelhança e imagem do Bloco. Para criar, num futuro, um partido da esquerda portuguesa. Um novo partido socialista.

É difícil, claro que é. Mas insisto, não chega ter mais deputados, mais simpatizantes, mais influência política e social. Isso é bom, muito bom. Mas em nome dos que sofrem todos os dias os que são vitimas do desemprego, do emprego precário. Dos que têm fome, não têm casa, não têm saúde. É preciso mais. É preciso arriscar mais. Ser mais combativos e conquistar todas as forças que nisso estejam verdadeiramente interessadas.

Há que apostar nestes caminhos. E não olhar para os nossos umbigos apenas. Por muito bem intencionados que sejamos. O tempo corre.


Eu também.

A maioria dos jovens espanhóis está a favor dos casamentos homossexuais, do aborto livre e da eutanásia para doentes incuráveis que a solicitem e é contra a pena de morte, seja qual for o crime.

sexta-feira, agosto 4

Fidel Castro e Cuba


Já estive em Cuba e gostaria muito de lá voltar. Apoio a luta contra o cerco americano e o esforço do povo pelo desenvolvimento e independência do país.

A doença de Fidel Castro fez sair do covil muitos dos lobos esfaimados que estão ao serviço do capitalismo e do imperialismo americano. Repetem-se os jogos de bastidores, as páginas inteiras de jornais com contra-informação, a manipulação e a especulação jornalística, o ataque aos ideais do socialismo.

Sendo marxista e estando solidário com Cuba, estou um pouco mais à vontade para abordar o assunto. Tentando-o sem dogmatismo.

O país é bonito, o povo é simpático e o clima é como eu gosto. No tempo que lá estive vivi o mais possível. Falei muito com os cubanos e eles comigo. Estive lá cerca de dez dias e dentro dos condicionalismos normais de um pacote turístico não tive restrições de circulação. A única restrição foi mesmo quando quis entrar numa discoteca só para jovens. Aqui o "velhote" ficou de fora.

Mas tenho alguns episódios, muito interessantes, que marcam bem o que é o tipo de regime. Não os vou contar, precisaria de 30 páginas.

Apenas quero iniciar algumas reflexões que, independentemente mas principalmente pelo meu posicionamento de esquerda, merecem ser feitas com serenidade. Reflexões que podem partir de perguntas, sem pressas de tirar conclusões.

1. Pode haver socialismo sem direito de greve dos trabalhadores? Pode haver socialismo com pena de morte? Pode haver socialismo sem direitos humanos?

2. Pode haver socialismo sem processos eleitorais em que o povo escolhe os seus caminhos políticos, usando o contraditório e a pluralidade?

3. Pode haver socialismo fundindo o partido com o Estado, e os dois com o exército?

4. Porque será que em muitos dos países ditos socialistas os dirigentes se perpetuaram no poder, como Fidel em Cuba?

Para iniciar um debate aberto e não sectário!

Victor Franco

quinta-feira, agosto 3

Odes Modernas

Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus, vem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...

(...)

Antero de Quental


quarta-feira, agosto 2

É a vida!

O telefona tocou. Eram 22h de quarta-feira, da Marinha Grande. “Camarada estou a telefonar para dizer-te que a Dâmaso vai encerrar amanhã”. Porra!


Conheci o processo da Mandata, partilhei as (in)certezas do encerramento com companheiros da Comissão de Trabalhadores. A Mandata fechou e cada um foi à sua vida, que parar é morrer e a barriga tem aquele relógio maldito. Fiquei com mais amigos.


Conheci o processo da Jorgen Mortensen. Com eles também partilhei lutas, manifestações com 200 e com 20 trabalhadores. Recordo, até com uma certa incredulidade, uma manifestação com 20 trabalhadores que corta a rotunda do 18 Janeiro. O trânsito parado, sossegado, e vinte gatos-pingados no meio da rotunda. Faltava força aquele povo para sair à rua com os trabalhadores.


Também não havia hostilidade, muitos dos que olhavam passivamente sabiam bem o que era ter contas para pagar e não saber como. Da Mortensen ficaram mais amigos e mais companheiros de luta.


Agora estava a acompanhar a Dâmaso. Novos amigos e novos companheiros de luta, mas mais uma empresa encerrada. Triste “sina” esta!


Os operários resignar-se-ão. O sindicato depois de variados esforços de denúncia e mobilização também acabará por ceder, os operários irão cada um para seu sítio que a barriga não perdoa. É a vida!


É a vida numa das terras mais simbólicas para os trabalhadores. Em cada rua, em cada travessa ou em cada largo da Marinha há uma estória de luta, um património valioso, uma mensagem de insurgência que pode estar adormecida, talvez até depreciada, mas que a seu tempo retomará o seu lugar. Essa é a nossa tarefa.


Poderemos não saber quando – mas sabemos que caminha para lá. É a vida! É a história!


Victor Franco


A PT vai gastar 625 milhões de euros com a saída de 2500 trabalhadores

A lista dos trabalhadores a serem convidados a sair da empresa já está nas mãos das chefias. São quinhentos, este ano e mais dois mil até ao ano 2008.

Nos tempos que correm, não consigo apelidar de despedimentos, esta iniciativa de reestruturação dos activos humanos da PT. Também não digo que os trabalhadores referenciados como “dispensáveis”, não passem dificuldades se não aceitarem as propostas. O costume.

A proposta apresentada aos trabalhadores, à primeira análise, não parece má e destina-se a quem tenha no mínimo, 50 anos de idade e 15 anos de descontos para a Segurança Social e/ou CGA. A proposta tem três vertentes:

Suspensão de contrato de trabalho a quem tiver, no mínimo, 50 anos de idade e 20 de descontos (S. Social + CGA), até aos 55 anos, com direito a vencimento e diuturnidades a 100 por cento, passando nesta altura, à condição de Pré-reformados.

Pré-Reformas, a quem tiver 55 anos e no mínimo 15 anos de descontos.

Rescisões por mútuo acordo, com indemnização de 2,5 salários base, por cada ano de serviço no mínimo de 45 000€.

Há ainda um conjunto adicional de incentivos à saída menos relevantes.

No entanto os trabalhadores estão conscientes que esta decisão de sair também tem riscos e que precisam de ser bem ponderados:

Devem saber que na situação de Suspensão de Contrato de Trabalho, (SCT) (até aos 55 anos) perdem mais de 200 euros em subsídios.
Na situação de pré-reformado, o vencimento baixa, para 90, 85, ou 80 por cento, do seu último vencimento, conforme o trabalhador em causa, receba o equivalente a dois salários mínimos nacionais ou até cinco ou acima dos cinco salários mínimos.
No caso dos descontos para as reformas, os subscritores da S.S, até perfazerem 37 anos de descontos, os seus descontos passam a 7 por cento e depois para 3%. Para os da CGA como não existe a figura de pré-reforma é previsível que se mantenham os descontos actuais até à aposentação completa.

Cada trabalhador é que deve saber o que é melhor para si. Saber o impacto financeiro no seu orçamento, da diminuição prematura da sua remuneração, desde já em mais de 200 euros na SCT e depois na pré-reforma em mais 10 a 20 por cento.
Na aposentação, haverá, se nada for alterado e nada disso é seguro, uma pequena recuperação ao deixar de descontar para a reforma e ao ver diminuída a sua contribuição para o IRS.

Também é seguro que o futuro no que toca à garantia das reformas... nada é seguro. O que se sabe, desde já é vai ser alterada, uma vez mais, a fórmula de cálculo, para pior. Agora o cálculo vai passar a incidir sobre toda a carreira contributiva o que segundo, alguns prestigiados economistas, significará, mais um abaixamento nas pensões até 20 por cento.

Caros companheir@s, não é fácil tomar uma decisão. Olhem para o frigorífico, para as Vossas contas. Olhem para as Vossas ambições em termos de qualidade de vida, e decidam. Não resta outra opção.

Em toda esta situação, custa perceber que uma empresa, com centenas de milhões de euros de lucros anuais; com centenas de trabalhadores em vínculo precário; com inúmeras situações de serviços de fundamental importância, prestados em outsourcing; com imensos trabalhos desempenhados por empreiteiros; e tendo uma quantidade enorme de trabalhadores a recibo verde, tenha ainda necessidade de dispensar 2500 trabalhadores.

Ou talvez percebamos. Está a caminho a venda de uma das redes. Está "decidida" a perda de cota de mercado. Os lucros terão de vir por outro lado; pela diminuição de custos com os trabalhadores e com a perda da qualidade de serviço. Não vislumbro outras razões.

O Governo apoia estas medidas. Está representado na Administração ao mais alto nível e tem opção de veto em decisões estratégicas, por isso não há dúvidas.

Pelos vistos, a ida de mais alguns milhares de pessoas, para a antecipação da reforma, e para os sistemas de segurança social, não são um problema para o país.

terça-feira, agosto 1

Vai-te foder Deus!



Eis aqui:

Homens, mulheres e crianças mortas
E Deus existe

Corpos estropiados
E Deus existe

Mães sem lágrimas para verter
E Deus existe

Edifícios em cacos
E Deus existe

Pessoas em fuga
E Deus existe

Bombardeamentos em barda
E Deus existe

Um país devastado a ferro e fogo
E Deus existe

Está tudo aqui, Deus.

Para veres melhor

Vai-te foder, Deus!
Vão-se foder Todos os Deuses.
… mais as Vossas teorias.

Filhos da puta!

a consciência não se apaga*

na diagonal da sombra
já todos os homens
resgataram as mãos

a sombra amovível
medida entre dois espaços
o da tua memória
e o do teu olhar


Álvaro de Oliveira
Baladas de Orvalho

(Passos de Anisa 14)

*nota os títulos dos posts e as imagens escolhidas para a poesia que tenho vindo a publicar do Álvaro são da minha responsabilidade.