quinta-feira, novembro 24

ao correr da pena II

Mais um dia se passou, já fui ao molho da Praia-Norte, mais ao menos até meio que a distância é grande, para aí uns cinco quilómetros entre ir e vir, não posso precisar, o que sei é que em passo rápido, tal e qual aqueles que agora se vêem por aí, até dar com um pau! – Não sei o que deu a esta gente, de repente, são às dezenas as pessoas que em grupo ou isoladamente, em passo largo e rápido, de vez em quando deitando os olhos ao relógio, não para saberem as horas, mas para saberem há quanto tempo, andam nisto, "todas" em cuidados com a linha ou a saúde, não sei bem qual a que prevalece, em fato de treino ou calções e T-shirt, lá vão elas, cantando e rindo a dar corda às sapatilhas, para ter aquele seu corpito bonito e torneado – demora cerca de quarenta e cinco minutos.

Pois é na naquela ponta do molhe, onde os barcos de pesca passam a rasar, no regresso da lida, bem lá ao fundo, a uns cinco metros do topo, em cima de uma das âncoras de cimento que sustém a fúria das ondas, naquele sitio certo, fim do rio e inicio do mar, no canto curvo em que água puxa mais forte nas correntezas da baixa-mar, onde, também, as ondas batem forte, quando o mar avança audaz, e se vai desfazer em espuma branca a espraiar-se, por entre as rochas, num deleite, que nos remete para o sonho de uma banho quente de imersão, ficando o rasto envolto numa nuvem de humidade que se entranha, no corpo e nos ossos, nesse vai-vem de ondas cruzadas que se reecontram, que é o meu local preferido da pesca ao robalo.

E é quando penso nisto que me lembro do meu joelho. Um joelho que se desgastou e desgasta nos saltos, de pedra a pedra, até chegar ao dito cujo. Nem mais um metro. O ponto certo que dá a alegria e o gozo de um tempo bem passado, a ouvir música escolhida do aparelho de MP3 que é uma companhia indispensável, e apanhar e trazer para casa, uns quilos de robalos, mas onde o risco é patente e onde um pé mal pousado, um desequilíbrio, uma escorregadela, um salto mal calculado, a falha do joelho e lá vai este artista, parar aos anjinhos, porque uma queda naquele sitio, só com muita sorte se escapa ao destino dos deuses.

Mas apesar de todos os cuidados, não é isso que nos passa pela cabeça, naqueles momentos. O corpo, a mente, todos os sentidos, estão concentrados, num objectico. O de apanhar um grande robalo! Ou apanhar quilos de robalo! Tantos e tantos que já houve noites (à noite, sim porque esta pesca é à noite ou umas horas antes do amanhecer) em que tive de deixar de pescar, apesar de estar a dar peixe e muito peixe que até dava dó, abandonar o pesqueiro. Mas a memória de uma noite, com o saco cheio, aí com uns quinze quilos, em que tive imensa dificuldade em fazer o caminho de regresso, a subir na noite escura, com os luzes de mineiro na cabeça a iluminar um caminho mal amanhado de âncoras escorregadias, da neblina nocturna, não deixam que a vontade de prosseguir, vença. Aplica-se aqui, com toda a propriedade o ditado que diz, quem tem cu tem medo.

O local onde pesco é partilhado por meia dúzia de outros pescadores, num espaço que não ultrapassa os quinze metros. Todos apanhamos peixe. Uns mais outros menos, claro. Mas quem apanha mais ou menos, quase invariavelmente, são os mesmos. Portanto, amigas e amigos se pensam que pescar é deitar a cana à água com isco ou amostra e esperar que o peixe apareça, com muita paciência, desenganem-se.

Há muitas técnicas, há diferentes tipos de isco ou de amostras, há conhecimentos dos pesqueiros, das temperaturas e cor das águas, da altura das marés, das luas, enfim, um manancial de conhecimentos e de diferentes métodos que combinados, conduzem a resultados diferentes.
Continua...

3 comentários:

mfc disse...

Que descrição bestial desta arte que é pescar! Senti-me a teu lado a fazer um lançamento....
Pescar, é verdade, tem muito que se lhe diga!

Cris disse...

Não é por nada Fernando, mas acho que estás a "ensair" um livro!
Só te peço um favor, avisa com antecedência que não quero correr o risco de estar na Venezuela ou em Cuba quando quando essa apresentação acontecer...não quero perder!

JASIEL ALMEIDA disse...

A FINAL DE CONTAS, AMIGO.
VC QUE ESTEVE NESSE LOCAL DE PESCA.
AFINAL O QUE REALMENTE É ESSE LOCAL DENOMINADO "MOLHO"
ABRAÇOS.