
Pois é na naquela ponta do molhe, onde os barcos de pesca passam a rasar, no regresso da lida, bem lá ao fundo, a uns cinco metros do topo, em cima de uma das âncoras de cimento que sustém a fúria das ondas, naquele sitio certo, fim do rio e inicio do mar, no canto curvo em que água puxa mais forte nas correntezas da baixa-mar, onde, também, as ondas batem forte, quando o mar avança audaz, e se vai desfazer em espuma branca a espraiar-se, por entre as rochas, num deleite, que nos remete para o sonho de uma banho quente de imersão, ficando o rasto envolto numa nuvem de humidade que se entranha, no corpo e nos ossos, nesse vai-vem de ondas cruzadas que se reecontram, que é o meu local preferido da pesca ao robalo.
E é quando penso nisto que me lembro do meu joelho. Um joelho que se desgastou e desgasta nos saltos, de pedra a pedra, até chegar ao dito cujo. Nem mais um metro. O ponto certo que dá a alegria e o gozo de um tempo bem passado, a ouvir música escolhida do aparelho de MP3 que é uma companhia indispensável, e apanhar e trazer para casa, uns quilos de robalos, mas onde o risco é patente e onde um pé mal pousado, um desequilíbrio, uma escorregadela, um salto mal calculado, a falha do joelho e lá vai este artista, parar aos anjinhos, porque uma queda naquele sitio, só com muita sorte se escapa ao destino dos deuses.
Mas apesar de todos os cuidados, não é isso que nos passa pela cabeça, naqueles momentos. O corpo, a mente, todos os sentidos, estão concentrados, num objectico. O de apanhar um grande robalo! Ou apanhar quilos de robalo! Tantos e tantos que já houve noites (à noite, sim porque esta pesca é à noite ou umas horas antes do amanhecer) em que tive de deixar de pescar, apesar de estar a dar peixe e muito peixe que até dava dó, abandonar o pesqueiro. Mas a memória de uma noite, com o saco cheio, aí com uns quinze quilos, em que tive imensa dificuldade em fazer o caminho de regresso, a subir na noite escura, com os luzes de mineiro na cabeça a iluminar um caminho mal amanhado de âncoras escorregadias, da neblina nocturna, não deixam que a vontade de prosseguir, vença. Aplica-se aqui, com toda a propriedade o ditado que diz, quem tem cu tem medo.
O local onde pesco é partilhado por meia dúzia de outros pescadores, num espaço que não ultrapassa os quinze metros. Todos apanhamos peixe. Uns mais outros menos, claro. Mas quem apanha mais ou menos, quase invariavelmente, são os mesmos. Portanto, amigas e amigos se pensam que pescar é deitar a cana à água com isco ou amostra e esperar que o peixe apareça, com muita paciência, desenganem-se.
Há muitas técnicas, há diferentes tipos de isco ou de amostras, há conhecimentos dos pesqueiros, das temperaturas e cor das águas, da altura das marés, das luas, enfim, um manancial de conhecimentos e de diferentes métodos que combinados, conduzem a resultados diferentes.
Continua...
3 comentários:
Que descrição bestial desta arte que é pescar! Senti-me a teu lado a fazer um lançamento....
Pescar, é verdade, tem muito que se lhe diga!
Não é por nada Fernando, mas acho que estás a "ensair" um livro!
Só te peço um favor, avisa com antecedência que não quero correr o risco de estar na Venezuela ou em Cuba quando quando essa apresentação acontecer...não quero perder!
A FINAL DE CONTAS, AMIGO.
VC QUE ESTEVE NESSE LOCAL DE PESCA.
AFINAL O QUE REALMENTE É ESSE LOCAL DENOMINADO "MOLHO"
ABRAÇOS.
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